segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A estranheza de pertencer.



É muito estranho pertencer. Pertencer a uma sociedade, a uma família, a um grupo, pertencer a uma vida. Pertencer a uma vida para mim é a estranheza do estranhamento, o que tínhamos antes? O que tínhamos depois? Não sei. Queria eu poder me desligar alguns instantes e fotografar o que há por dentro, por fora, por detrás da vida. Por detrás de nós. Assusta-me as vezes a consequência de algumas drogas. Porque há simplesmente a sensação de não pertencer, de não pertencer à vida, de não pertencer a esse mundo. Não sei até quando isso é ruim, ou até mesmo bom.

Quando nos doamos a alguém, cria-se o estranho da estranheza do estranhamento. Explico melhor, o pertencer que me refiro não necessariamente venha da posse, a não ser que hajam escolhas, mas ao nos doar ou enfim pertencer ao íntimo, está no ínfimo de outra pessoa, saber seus cheiros e gostos e olhares e reconhecer seus dedos e unhas. A junção de duas vidas, a junção das permissões de pertencimentos, há em algum momento a criação de outra vida, digo isso porque as vidas se juntam e elas as vezes tornam uma só. Parece até natural do amor criar outras vidas... “Quem ama quer casa, quem quer casa quer criança, quem quer criança quer jardim, quem quer jardim quer flor. E como já dizia Galileu, isso é que é amor. Ai, ai caramba, ai ai caramba...” (Caramba... Galileu da Galileia - Jorge Ben Jor)
Não que a minha opinião e a de Jorge Ben Jor sejam as únicas possibilidades, escrevo aqui só para refletir sobre o que me inquieta, sobre o que quero saber mais e sabendo mais me conhecer mais. Mas para que filhos? É está no real demais, acho que a família mostra para nós que estamos pertencendo a vida, que estamos sendo e tendo e é um ato contínuo de ser. Fora da família só há loucura? Acho que o não pertencer é loucura ou isso é a sociedade que nos diz? Há felicidade sem pertencimento? Alex Supertramp (Na natureza selvagem) disse uma vez, antes de morrer que felicidade só é verdadeira quando é compartilhada. Um homem branco, classe média alta, hétero, estadunidense não é parâmetro para mim, mas devo dizer que concordo com Alex, além de gostar bastante do filme e imagino que o livro deva ser belíssimo também, mas buscarei outras fontes, minha avó negra, gorda e pobre deve saber me dizer de uma forma bela o que é felicidade também e se isso deriva do pertencer, do compartilhar, do permitir. Mas imagino que o pertencer e a permissão devam compor o que é a felicidade, minha felicidade ultimamente é pertencer a natureza e me permitir descobri-la e conhece-la e toca-la e comê-la e senti-la e fotografa-la e abraça-la. Pertenço à natureza e nela criei outro eu, me recriei para poder banhar de água doce e de água salgada, me recriei para poder viver esse pertencimento, me recriei para poder viver a estranheza do estranhamento, ou seja, a vida. (10-08-2010, reflexões no vagão do metrô)


2 comentários:

jacaranda disse...

Que lindo, ray!

Também estou fazendo essas reflexões por esses dias. O que é pertencer? Lembro que a última conclusão que cheguei sobre isso foi que eu não me considerava brasileiro. Já que o projeto de nação brasileira não me contempla, não me aceita, nunca me ofereceu nenhuma possibilidade de fazer parte do jogo em uma posição minimamente digna, que o ideal do ser brasileiro não é a minha imagem e meu ser, a única coisa que posso fazer é dizer que eu não sou brasileiro! Sou apátrida! Minha pátria é o mundo e todo mundo que me trate bem e que me aceite do jeito que eu sou e me ajude a me tornar uma pessoa melhor a cada dia. Fora isso? Não. Não me obrigo mais a pertencer aos lugares que não me querem, não me amam e não aceitam o que eu posso oferecer. Que é bem pouco. Mas é de coração e é verdadeiro. É muito doloroso quando as pessoas desprezam nossas verdades por elas não serem perfeitas. Beleza! Não são perfeitas, mas são minhas verdades. As únicas que eu tenho. As trate com o mínimo de cuidado, por favor!
Quanto à família, po, eu sempre sofri muito por não ter tido uma família estruturada e hoje em dia tenho pouca relação com minha mãe, meu pai ou mesmo meu irmão. Tô sozinho na cidade de brasília aprendendo a viver todo dia matando um leão e lutando para não deixar minha fé morrer. Ta sendo meio difícil, mas é o desafio que tá posto para mim. Por isso não sei falar muito bem sobre pertencer à uma família. Nunca pude sentir isso. O Paique me deu um insight sobre essa parada num texto que ele produziu pruma matéria do mestrado que ele ta fazendo. Ele escreveu que é óbvio que as famílias negras são desestruturadas, por que não tinha como ser de outro jeito depois de 400 anos de escravidão, comercialização dos nossos pais e mães pelo Atlântico e depois por todo o Brasil e por fim uns cento e tanto anos de racismo. Nossas famílias só podiam sair desestruturadas mesmo. E quem sofre com isso são as novas gerações. Nossas crianças que crescem sem pai, com uma mãe tendo que segurar todas as barras, indo mal na escola, usando droga desde cedo, engravidando ainda adolescente e morrendo aos 25 anos de idade.

Hoje sinto que minha missão é construir uma família feliz. Uma fortaleza onde eu possa oferecer conforto e segurança para as pessoas que eu tanto amo.

Gostei muito do teu texto viu. Estamos Juntxs! E estamos vivxs!

Srta. Clichê! disse...

Ray, esse sem sombra de dúvidas é o seu melhor texto, que deve ser reflexo do seu melhor momento!
Nossa, me bateu uma saudade agora. Não que ela não seja constante, mas é que nesse minuto ela atingiu um limiar inacreditável!
Sabe... Você se daria bem estudando Psicologia. Fascinar-se-ia ainda mais por tudo isso que escreveu!